14 julho 2007

Vocês ficam a trabalhar, não é?! Eh pá, que chatice...


Descansar à imagem e semelhança de Deus...

A bíblia diz que “Deus criou o Ser Humano à Sua imagem e semelhança” (Gen 1, 26-27). A imagem e semelhança de Deus em nós não é um “selo” que levamos na testa nem na “alma”, mas sim uma Vocação a construirmo-nos segundo o Amor, a Verdade e a Justiça.

Uns versículos à frente, a bíblia continua: “Então, no sétimo dia, Deus Descansou…” (Gen 2, 2). Deus não Descansou do Seu “cansaço” criador, nem estava “farto de trabalhar”! Este Descanso é linguagem bíblica para dizer o seguinte: ao criar o Homem, Deus dá-lhe espaço para ser, confia-lhe liberdade. Os rabinos judeus muitas vezes traduzem este versículo deste modo: “Deus ‘encolheu-se’ [ou ‘suspendeu-se’] para dar lugar ao Ser Humano!”

A grande Boa Nova desta linguagem bíblica é que Deus nos cria criadores de nós próprios. Cria-nos à Sua imagem e semelhança para sermos capazes de criar com Ele e como Ele. Ser criado por Deus à Sua imagem e semelhança significa tornar-se Seu colaborador na obra da Criação, sobretudo na criação de nós próprios, na qual a nossa acção é tão insubstituível quanto a Sua!

Somos fiéis a esta Vocação divina de sermos à imagem e semelhança de Deus sempre que procuramos a Liberdade e a Responsabilidade. Somos fiéis a esta Vocação divina de sermos à imagem e semelhança de Deus sempre que defendemos as causas do Amor, da Verdade e da Justiça. Mas, além disto, também somos à imagem e semelhança de Deus quando Descansamos!

Descansar não significa “perder o tempo!” Descansar à imagem e semelhança de Deus significa estar apenas ocupado em Ser. No corre-corre em que há sempre tantas coisas urgentes para fazer e resolver, esquecemo-nos muitas vezes de Ser!

Descansar à imagem e semelhança de Deus significa amadurecer na Liberdade, olhando dentro e fora de nós para reconhecermos se há escravidões das quais devemos libertar-nos ou sermos mediação de libertação para outros.

Descansar à imagem e semelhança de Deus é parar para dar-se conta de que Viver é infinitamente mais que existir.

Descansar à imagem e semelhança de Deus é escutar a voz de todas as coisas, desde os murmúrios da Criação que durante meses a fio não contemplamos às confidências daqueles que amamos e a quem passamos dias seguidos sem dar dez minutos de atenção!

Descansar à imagem e semelhança de Deus é desabituar-se das manias do mundo, libertar-se das suas cadeias, não ligar às suas modas e arejar dos seus vícios para criar espaço interior de tranquilidade, novidade e diferença.

Descansar à imagem e semelhança de Deus é também encontrar tempo para estar a sós com Jesus. Depois de enviar os seus discípulos à primeira missão, Jesus disse-lhes isto quando regressaram: “Vamos juntos procurar um sítio deserto e vamos Descansar um pouco…” (Mc 6, 31)

Então, tranquilamente na presença de Jesus ressuscitado, podemos abrir o Coração ao lado Importante da Vida, e deixar o lado Urgente na prateleira do adiável.

Porque Descansar à imagem e semelhança de Deus significa também estar ocupado não a trabalhar mas a trabalhar-se, não a fazer muitas coisas mas a fazer-se, não a produzir mas a renascer!



SHALOM

13 julho 2007

O Corpo de Cristo

Fui celebrar Eucaristia ainda cedo. Uma Eucaristia normal, com as pessoas do costume no sítio em que era… Tinha para mim reservada uma surpresa quando chegasse o momento da comunhão…

Já lá vamos. Antes de mais, tenho que partilhar que me dá uma pena imensa que à maior parte dos cristãos não lhes tenha sido dada a possibilidade de fazer a experiência da Fé em contextos verdadeiramente comunitários em que o Espírito Santo possa fazer despertar a dinâmica dos Carismas e a descodificação das palavras da bíblia em Palavra de Deus!

Por isso, os próprios sinais que Jesus escolheu para representar a sua entrega e consagração definitivas à causa do Reino de Deus, foram muito deturpados. O Pão que os cristãos comem na Eucaristia é o sinal escolhido por Jesus, naquela Refeição da despedida e do testamento, para significar o seu Corpo. Mas o Corpo em linguagem bíblica não é uma realidade biológica, mas antes relacional. "O seu Corpo" é a unidade orgânica de Jesus com os seus discípulos!

A “Fracção do Pão” é o símbolo pascal da Vida de Jesus Ressuscitado a circular relacionalmente no íntimo dos seus discípulos, de maneira muito especial quando se reúnem para celebrar a Gratidão [em grego, eukaristia]. É uma pena que quase se tenha perdido este sinal da Fracção do Pão, que era o próprio sinal sacramental na Igreja primitiva, e por isso foi mesmo o primeiro nome da celebração!

O sinal de Jesus é o “Partir do Pão”, não o “pão” em si mesmo, como se fosse magia!!! Jesus ressuscitado não “salta” magicamente para dentro do pão, mas faz-se presente aos seus discípulos pela dinâmica relacional celebrativa que eles realizam e representam ao “Partir do Pão”, sinal da Partilha e da Pertença mútua. Os discípulos de Emaús “reconheceram Jesus ao Partir do Pão”, não “no pão”! (Lc 24, 30-35)

Nós somos o Corpo de Cristo! Ele é a Cabeça e nós somos os membros. O Pão, um só Pão partido e repartido por todos, é sinal visível e celebrativo [em latim, sacramentum] desta unidade orgânica de Jesus com os seus discípulos pelo vínculo do Espírito Santo. Formamos com Jesus Ressuscitado o Cristo Total! É de tudo isto que o Apóstolo Paulo fala quando diz que “formamos um só Corpo todos nós que comemos do mesmo Pão e, por isso, somos membros uns dos outros!” (Rom 12, 15; 1Cor 10, 15-17)

Desde a época medieval, o normal é o pão já vir “partidinho” em doses individuais… Deixou de chamar-se “Pão” e ganhou o nome de “hóstia” [palavra latina para dizer "vítima de um sacrifício”, tal foi a mudança de compreensão do que era a própria Eucaristia, não mais uma refeição pascal mas um acto de culto sacrificial… E até deixou de parecer pão, e tornou-se, como dizem as crianças, um “bocado de papel” ou “batatas fritas sem sal” [já ouvi eu, e não foram as piores…]

Mas estou a partilhar isto tudo para te contar, finalmente, o que aconteceu esta manhã. No momento em que distribuía o pão na celebração, veio uma senhora já de idade, com uma dificuldade muito grande em caminhar. Pegou no pão, pô-lo na boca e estava a virar-se muito devagarinho para voltar ao lugar. Atrás dela uma matrona toda emproada com ares de impaciência. E eu a ver… Até que se cansou e, num lanço, deu um empurrãozito à senhora e cheia de maus modos passou. Diante de mim, põe as mãozinhas todas juntinhas e deita a língua de fora… A velhita coxa, coitada, a olhar para trás toda triste pelo empurrão e pelos maus modos da "apressada"…

Pronto! Virei-me para trás, deixei a "matrona" de língua estendida, pousei o pão na mesa da Eucaristia, dirigi-me à senhora mais velha e conduzi-a pela mão em três passitos pequeninos para a frente da “apressada”. As caras eram de um espanto que nem sei descrever… Pus a “velhinha” entre mim e a “apressada”, voltada para ela, no sítio em que estava a distribuir o pão, coloquei-lhe as mãos nos ombros e, com um gesto de quem faz uma entrega disse: “O Corpo de Cristo!”

A “matrona apressada” não percebeu o que eu estava a dizer… Acho que ninguém percebeu… Voltei a dizer: “O Corpo de Cristo!”

Acho que percebeu… Ficou toda encavacada, olhou para mim e para a senhora que eu parecia segurar nas mãos de tão pequenina que era, e pediu-lhe desculpa. Percebeu…

A senhora lá voltou a coxear para o lugar dela, e eu voltei a pegar no pão para continuar a distribuí-lo…

Depois não sei o que aconteceu. Terminámos a celebração… Não nos vimos mais, nenhum dos três… Eu sei que me lembrei disto mil vezes durante o dia! E tenho a certeza que não fui o único…

Deus lá sabe!



SHALOM

10 julho 2007

“Fala da Fé com Fé”...

...ouvi hoje esta expressão referida já nem me lembro a quem, mas tocou-me profundamente. "Falar da Fé com Fé"...

Tenho Coração de Evangelizador, quem me conhece sabe-o bem. Procuro que tudo esteja em função do anúncio do Evangelho Libertador de Jesus, a Boa Notícia de um Poder, de uma Justiça e de um Amor que, sozinhos, não seríamos capazes de inventar. Quando conheço alguma coisa nova, quando surge uma nova possibilidade, imediatamente penso se “por aqui haverá caminho”… Foi assim com este blog, por exemplo. Quando comecei a dar-me conta desta realidade e desta nova forma de comunicar perguntei-me logo: “Por aqui haverá caminho?”... Experimentei, e sinto que houve! Outras vezes experimentei outras coisas e dei-me conta de que, afinal, ou não havia ou eu não o soube descobrir…Mas isso agora não interessa.

O que interessa é que para alguém que permanentemente procura caminhos e linguagens que possam traduzir de maneira eficaz o Evangelho de Jesus para os nossos dias, uma expressão como esta que hoje ouvi tem a força de uma Revelação!

“Falar da Fé com Fé!”... Porque aqui já não se trata de modos nem linguagens, mas da própria VERDADE e AUTENTICIDADE do Coração.

“Falar da Fé com Fé” implica estar inteiro naquilo que se anuncia. É como perceber interiormente que o próprio evangelizador também é parte do Evangelho que anuncia, porque se torna inevitavelmente o seu primeiro rosto! E isto é quase perturbador…

“Falar da Fé com Fé” significa compreender-se a si próprio como “terra de missão”, como um discípulo permanentemente a precisar de sentar-se aos pés do Mestre para não transformar a Palavra da Vida numa doutrina feita apenas de palavras suas, ainda que belas, ainda que verdadeiras…

“Falar da Fé com Fé” acho que também é fazer muitas vezes a experiência de sentir-se encantado e maravilhado com o Evangelho que nós próprios anunciamos, o que é a garantia mais íntima de que ele não vem de nós… Acontece em nós e através de nós, mas precede-nos e ultrapassa-nos infinitamente…

O Evangelho só é verdadeiramente anunciado como Evangelho-Boa Notícia quando isso acontece num profundo movimento de Gratidão. Uma Gratidão imensa por ter sido encontrado inesperadamente num qualquer entroncamento da Vida pelo rosto encantador de Jesus de Nazaré…

Quando, com ele, se faz a experiência íntima do que é a Graça como Dom incondicional e plenificante de Deus, a Gratidão começa a fazer surgir em nós necessidades e apelos que antes não conhecíamos. Anunciar o Evangelho é um destes apelos interiores que, lentamente, se torna uma necessidade. Sinto que, enquanto a nossa transmissão da Fé não estiver impregnada de Gratidão, falta algo de essencial…

Anunciar o Evangelho de Jesus é privilégio de todos os que se dizem seus discípulos! É privilégio de todos os que dizem acreditar que nasceram no seio de uma Humanidade salva, que a Vida que constroem tem um horizonte de Plenitude e que o Amor derrota a morte!

“Falar da Fé com Fé” é anunciar a Boa Notícia da Ressurreição enquanto se constrói interiormente o Homem Novo e socialmente o Reino de Deus!

“Falar da Fé com Fé “ é… ou, se calhar, não é! Se calhar não é nada disto, e não importa! Porque o fundamental quando se fala da Fé com Fé talvez seja mesmo nunca se tornar escravo dos contextos, dos modos e das linguagens para dizer tudo isso, mas viver uma história de amizade e identificação com Jesus em que aprendemos a deixar que seja ele a mandar…

Pelo Espírito Santo que, no nosso íntimo nos conduz à VERDADE, saboreamos maravilhados que Deus é maior que as palavras que dizemos dele e não cessa de nos procurar e conduzir em todos os tempos e lugares. E, então, tudo recomeça…

Sinto que a Fé à medida do Evangelho tem a ver com esta experiência… E “Falar da Fé com Fé” é propor esta experiência a outros numa atitude humilde de serviço amoroso aos irmãos impulsionada por uma incontida gratidão…


SHALOM

06 julho 2007

Pôssa, nunca mais aprendo!!!

Estava de bicicleta a fazer uma “interminável” subida que é o meu maior desafio no caminho de regresso a casa quando vou até ao mar. Eu e esta subida já nos conhecemos há uns tempinhos…

Por isso, enquanto pedalava, ritmo certinho e seguro, pensava apenas “É hoje que te faço de uma assentada só!” e levava os olhos cravados na roda da frente. Porque eu bem sei que só de olhar a subida assusta…

Estava tudo muito bem. De repente, num misto de distracção e curiosidade, levantei os olhos da roda da frente e olhei para a subida que ainda faltava!

Pronto… Passados dez segundos estavam a doer-me as pernas…
Passado meio minuto estava sentado aqui na berma a descansar um bocadinho e a rabiscar isto num pedaço de papel que trazia na mochila.

Pôssa, nunca mais aprendo!!!




Percebeste?...

SHALOM

05 julho 2007

Quando ele nos troca as voltas... (Lc 10, 25-37)


Jesus estava a falar com os seus discípulos, aos quais tinha acabado de receber depois de os ter enviado em missão, e eis que aparece um Doutor da Lei. Um perito em teologia da altura, veio procurar Jesus e, diz o evangelista Lucas, “fez-lhe esta pergunta para o pôr à prova”: “Que devo fazer para merecer entrar no Reino dos Céus?!” Uma pergunta bem “à judaica” segundo a lógica da Antiga Aliança em que tudo se decidia no “obedecer e merecer”…

Mas isso agora não interessa muito, porque também não era isso que ocupava a mente daquele Doutor da Lei. Estava mais preocupado em ver como se desenrascava o novo “Mestrezito” que tinha aparecido e que, além de ser da Galileia, tinha como ofício a arte das madeiras e não das “Escrituras Sagradas”…

Mas Jesus não é assim tão fácil de apanhar… Não é arrogante nem é submisso, é profundamente Livre! E como homem livre, abre também ao Doutor da Lei a porta dessa Liberdade: em vez de lhe dar uma resposta, devolve-lhe a pergunta… “O que está escrito na Lei? Como lês?!”

E ele deu uma resposta sensata: “Amarás a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo!”
“Respondeste bem – disse Jesus – então faz isso e viverás bem!”

Este diálogo de Jesus com o Doutor da Lei é um exemplo concreto de que as perguntas de Jesus são muito mais perigosas que as suas respostas… Porque das suas respostas pode-se fugir facilmente! A resposta do outro deixa-me sempre espaço para aceitar ou rejeitar. Mas das perguntas que Jesus faz é muito mais difícil fugir, porque não podemos fugir da nossa própria resposta!

As respostas aceitam-se ou rejeitam-se; as perguntas implicam-nos! O Doutor da Lei, querendo “apanhar” Jesus na resposta que ele lhe desse, ficou totalmente apanhado na sua própria resposta! Ainda tentou, mesmo assim, fugir. Numa manobra de quem estava bem treinado em enfadonhas argumentações, “perguntou a Jesus para se justificar: Mas, quem é o meu próximo?”

Pior…

É arriscado jogar assim tão abertamente com Jesus. Os discípulos dele já o sabiam bem! Por isso o mesmo evangelista Lucas, um bocadinho antes, nos narrou uma situação em que eles queriam fazer-lhe uma pergunta mas não fizeram porque tiveram medo… (Lc 9, 45)

O Doutor da Lei não sabia disto, e Jesus começou a contar-lhe uma parábola. No fim dela, o Doutor da Lei fica face-a-face com a grandeza de um Samaritano que foi o único a compadecer-se de um homem caído na estrada… Um Samaritano, membro dessa raça de gente impura por natureza odiada pelos judeus!

Ao terminar a parábola, nova pergunta de Jesus: “Então, quem foi o próximo daquele homem caído na estrada?”

Não havia fuga possível… Apesar disso, ainda conseguiu dar resposta evitando a palavra “samaritano”: “Foi aquele que usou de misericórdia com ele”…
E Jesus remata da mesma maneira que tinha feito antes: “Então vai e faz o mesmo!”

As perguntas de Jesus… Que arriscadas são… Implicam-nos! Como uma companheira de comunidade disse há pouco, “são como setas apontas, e Jesus é certeiro!”

Ao saborear esta atitude muito própria de Jesus e esta arte de perguntar que leva o outro a descobrir a resposta de maneira livre e comprometida, leio aqui com muita facilidade os momentos decisivos da minha história pessoal com ele!

Lendo em retrospectiva os últimos dez anos da minha Vida, os saltos qualitativos que Jesus me tem feito dar surgem sempre no meu íntimo como perguntas incómodas para as quais não tenho resposta imediata, embora perceba que me implicam por inteiro!

Ao princípio não percebia muito bem este jeito de Jesus… Pensava que as perguntas brotavam de mim próprio e pedia-lhe a ele as respostas. Depois é que comecei a aperceber-me que eram as perguntas que vinham dele, e a minha tarefa era dar resposta, colaborando com o Espírito Santo presente no meu íntimo.

É por isto que os saltos qualitativos estão tantas vezes associados a momentos de crise, porque no nosso íntimo surgem perguntas fundamentais para as quais ainda falta encontrarmos resposta...

Partilhei isto há pouco em comunidade e, no fim, uma companheira disse-me: "Isso da pergunta ser de Jesus e a resposta ser minha não me deixou muito descansada..."
Eu ri-me e apenas acrescentei: "Era suposto?..."


Mas, como esta pergunta é mesmo minha, não vale a pena darmo-nos ao trabalho de responder!

Se calhar não fui capaz de pôr em palavras aquilo que queria mesmo partilhar, mas… quando as coisas têm a ver com a profundidade da relação de Jesus connosco, todas as palavras são poucas e demais ao mesmo tempo!

E, além disso, não podem ser todos os dias Post-Its. Afinal, já que tenho a fama, quero também o proveito, EHEHEH!


SHALOM

03 julho 2007

...o "complot"...

[clica sobre a imagem para ver maior]

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E agora, já estão mais contentinhos?!



Eu ainda vou descobrir quem mais está metido neste autêntico "complot" contra mim...
Apesar de tudo, SHALOM, eheheh!

A minha partilha, também...

Em primeiro lugar, tenho que agradecer a todos os que partilharam o que suscitou neles a pergunta da Liliana. Os comentários foram "Muitos mas Bons", o que é raro. Fiquei muito feliz por sentir que, aqui por este cantito na blogosfera, se respira ar fresco e diferente...

Além disso, partilho também o eco que fez em mim a pergunta... Não é uma resposta, é claro!!! Como vocês fizeram, é também uma partilha, muito íntima e verdadeira. É claro que há uma grande diferença: o tamanho! Este post é longo... Não consegui doutra maneira! Depois eu redimo-me, prometo...

Olha, vivia bem sem Ti. Sabes bem disso…

Para mim é hoje claro que, no sentido da utilidade funcional, não “serves” para nada! A diferença entre Utilidade e Serviço só se descobre no íntimo de uma Relação marcada pelo Amor. Por isso é que não tenho medo, hoje, de me pôr diante da pergunta da Liliana tal como ela a fez: “Para que serves?”… Porque hoje amo-te! E quem ama não instrumentaliza o outro! Já não tenho medo de Te instrumentalizar, porque descobri que deixar-Te ser o que és dá sempre melhor resultado do que querer impor-te as minhas ideias sobre Ti e sobre mim próprio…

Tudo começou quando alguém me falou de Jesus de uma maneira diferente. Pela primeira vez ouvia falar dele como alguém que tinha construído uma vida concreta que, como a minha, tinha a ver com escolhas, decisões, dúvidas, encontros, enfrentamentos, desafios… Deixou de ser um mito e tornou-se uma história.

Tudo começou assim… Hoje, claro, leio a minha história pessoal à luz da Fé e vejo a Tua Bondade a serpentear através dela muito antes, mas eras para mim um desconhecido. O Teu Nome era a expressão de uma ausência ou a simples lembrança de coisas esquecidas em sótãos velhos cheios de inutilidades de outros tempos… Jesus estava lá contigo, como um bibelô foleirito a quem alguns ainda achavam uma certa piada…

Lembro-me que o meu primeiro encontro a sério com Jesus foi através das suas Parábolas… Eu ficava admirado com a facilidade com que elas se conseguiam actualizar. Lembro-me bem que as lia e me punha a interpretá-las à minha moda… Sentia-me muito livre enquanto o fazia, e encantado. É claro que a beleza das parábolas me foi conduzindo à beleza do Rosto daquele que as contava… Ainda bem!

Na altura não imaginava o que fosse o Reino de Deus, mas já percebia que nas parábolas Jesus queria revelar traços do Teu próprio Rosto! E havia qualquer coisa em mim que me dizia que Jesus era de confiança… Comecei a fiar-me nele e, então, foste Tu entrando em jogo. Ao princípio era mesmo um jogo, era assim que o vivia, como que brincando ao “gato e ao rato”… Cada parábola de Jesus era um desafio a saber coisas novas de Ti! Das parábolas passei aos encontros de Jesus nos evangelhos… Usava um Novo testamento pequenino que pessoas de uma seita qualquer me tinham dado um dia à porta do liceu. Hoje sei que a tradução era mesmo muito má, profundamente alterada, mas nessa altura serviu bem! A Tua Palavra não é escrava de nenhumas palavras…

A pouco e pouco começaste a “montar a tenda” no meu pensamento. Pensava em Ti várias vezes… Esperava com ansiedade próximas oportunidades de descobrir-te… O jogo do gato e do rato foi uma fase muito bonita, com tanto de verdadeira quanto de ingénua! Mas todas as histórias têm que começar de alguma maneira…

A pouco e pouco, começaste a ganhar importância em mim! Dizer “Deus” já era dizer o Nome de “alguém”! Ainda não saboreava a minha Vida como pertença ao teu Mistério de Amor Trinitário, mas o Teu Nome já era o Nome de "alguém".

Percebi que, afinal, o “deus” que estava no sótão da velharia não eras Tu! Comecei a dar-me conta de como tinham usurpado o Teu Nome para dizer e fazer tantas coisas que, claramente, Tu não farias nem inspirarias! Porque é que eu tinha tanta certeza? Porque eram coisas que Jesus não faria nem aprovaria! E ele passou a ser sempre o “ponto-de-referência”. O que não puder ser dito de Jesus não pode ser dito de Ti!

Um dia começaste a dizer-me que a minha Vida podia ganhar muito mais significado que aquele que eu sonhava dar-lhe. Um dia começaste a falar comigo de outras pessoas, e não de mim nem de Ti. Mostraste-me, através de inúmeras e discretas experiências, que aquilo que eu amava como fundamental da minha Vida, afinal, não era assim tão importante… Convidaste-me a dar um salto, e eu coloquei-me na beira do abismo. Foi aí que, pela primeira vez, surgiu o medo. Eu não conhecia o abismo… Hoje sei que se chama “Abismo da Confiança” e ninguém perde a Vida por se lançar de lá, mas na altura não era mais que um abismo…

Depois de saltar a primeira vez, senti-me renascer. Já não queria voltar atrás! Lembro-me bem que, nessa altura, comecei a conversar contigo chamando-Te “Meu Vício e meu Amor!”

Experimentava-te mesmo como um vício! Não sentimos falta nenhuma dele até o termos… Depois penetra-nos até ao tutano.

Fui descobrindo em Ti uma fonte permanente de surpresa e admiração, uma nascente inesgotável de Palavra e Comunicação. No concreto do meu pecado e da minha imperfeição, experimentei a Tua presença como Amor incondicional e Perdão sem medida. Aprendi, então, que também te chamas “Graça”. Na história de amizade que fui construindo com Jesus e na procura constante da Tua Vontade fui saboreando o que é exultar intimamente de alegria por acção do Espírito Santo! E no contacto missionário com muitas pessoas percebi que, verdadeiramente, o Evangelho de Jesus é eficaz! A Boa Notícia da Tua ternura libertou diante dos meus olhos muitos Corações e recriou muitas mentes. Vi pessoas a voltarem a acreditar nelas próprias! Sempre achei admirável, ó Deus, que estivesses mais preocupado em fazer as pessoas acreditar em si próprias do que em Ti! És desconcertante…

Fui saboreando tantas coisas bonitas que nos últimos anos já disse muitas vezes que se fosse obrigado a viver sem te conhecer assim, preferia nunca ter nascido! Tornei-me mais pessoa ao conhecer a Tua Palavra porque acreditei que o Amor é eterno. Tornei-me mais feliz porque deixei de querer uma quantidade de coisas que só me dispersavam... Tornei-me mais inteiro, mais uno, porque percebi que o segredo de uma Vida fecunda é derrubar todas as fronteiras do egoísmo e do medo.

Fui e vou percebendo mil segredos destes, e já aprendi a não me perturbar por não os viver todos já hoje nem ao mesmo tempo! Porque Tu me educaste o Coração com a Tua Paciência e até com o Humor com que algumas vezes senti que olhavas para os meus dramas…

Mostraste-me que quando me amavas estavas já a amar uma multidão incontável de homens e mulheres através de mim. Ensinaste-me que não posso guardar em mim aquilo que Te pertence! E, sabes, é o melhor que tenho… A minha Vida está cheia de Sentido e Significado! Faço com frequência experiências que me fazem, exultar e dizer: “Valeu a pena ter nascido só para viver isto!”

E nada disto foi escolhido, nem pedido, nem realizado por mim… Quando optei por Ti em nome do Teu Jesus, optei por uma realidade muito mais pequena, aquela que conhecia na altura! A partir daí, tudo foi Dom!

E como sei que és assim, rejubilo com a certeza de que não estás encerrado em nenhuma das minhas palavras! És infinitamente Outro, e eu vou conversando contigo e falando de Ti com estas palavras que por cá vou arranjando…

Espero o Teu colo, e pronto! Não tenho outras pretensões senão o Teu colo em que acontece permanentemente uma Festa de Amor pleno, Reciprocidade perfeita e Perdão agradecido! Vivo pelo Teu Amor Terno e Eterno!

E procuro manifestar esta Esperança e Confiança com atitudes de partilha do melhor que tenho: os Teus próprios Dons na minha Vida e na Vida dos meus irmãos! Há uns anos não me servias de nada porque não tinhas utilidade. Hoje continuas a não ter, mas entrou o Amor no meio desta “história de nós dois”, e aqueles que amamos são sempre essenciais e insubstituíveis. Serves para que eu sirva para qualquer coisa, porque não procuro outra glória senão a Tua e não desejo anunciar outro Reino senão o Teu!




SHALOM